Sábado, 11 de Julho de 2009

UMA IMAGEM AO ACASO...





ESTE SÁBADO, DE HOJE, DURANTE A MANHÃ, NA BAIXA DE COIMBRA

APETECE-ME VOAR




Porque havemos de ser tão limitados,
ter horizontes curtos, pouco sonhadores,
rotineiros, habituais, perceptíveis, agarrados,
capazes de grandes feitos, noutros, grandes estupores,
homicidas, mentirosos, vigaristas, poetas infernizados,
fazendo-nos passar por especialistas, grandes doutores,
umas vezes, pelas multidões, ou até por uma só, odiados,
outras vezes, sem que nada se faça por isso, somos amores,
incompreendidos, com falsas descrições, somos amados,
como um invólucro sem conteúdo, amostragens sem valores,
somos apenas produtos, ideias metafóricas, sonhos idealizados,
fantasmas de coisa nenhuma, brisa do vento que passa, vapores,
um chapéu de palha a voar, uns pássaros no horizonte, esboçados,
uma menopausa na dama, uma andropausa no senhor, calores,
estados de alma, suores frios, frustrações engalfinhadas, coitados,
quem sofre, sente, não vive, inveja a felicidade de tantos amores,
fora de prazo, sem validade possível, perdidos no tempo, marados,
à procura de um sol verde, um arco-íris, uma nuvem de mil-cores,
um prado verde, um calmo lago, um vale azul, uns livros falhados,
vidas descontinuadas, cães sarnentos, escanzelados, plenos de dores,
naquele porto de abrigo que seria suposto ter paz depois de ancorados,
mas o mar agitado, encapelado, não tem sentimentos nem faz favores,
cada um que procure sua forma de viver nestes tempos desgovernados.

EM BUSCA DE UM ABERRANTE MUNDO MELHOR






Há dias, salvo erro na RTP1, vi uma reportagem sobre uma rádio do Norte que, entre os seus ouvintes, sorteava um funeral de luxo para o vencedor.
Sempre que acedo ao “Netlog”, um site da Internet, sou bombardeado com o seguinte convite: “Peidos para os amigos –queres ter peidos no teu telemóvel? 4 E/s. Vais pôr toda a gente a rir!”. A seguir vem o endereço do site para inscrição.
Quando me miro ao espelho, em solilóquio, quando, em monólogo, falo comigo, digo, “rapaz, não te feches em convicções, ouve o que os outros têm para te dizer. Por muito absurdo que seja, escuta os seus argumentos. Tu que até gostas de escrever, pode até dar uma boa tese para um qualquer texto. Não radicalizes o teu discurso, como se fosses o dono da verdade –não existe uma verdade absoluta, mas várias relativas, e, no esmiuçar destas, se chega a uma a que poderemos dizer de aceitável ou convencionada-, ouve, e mentalmente, faz a separação, ou dirimes, entre o que concordas e te convém”.
Sou um liberal, com a carga positiva ou negativa que a palavra possa ter. Acredito que o mundo, segundo-a-segundo, está em constante mudança. E esta alteração pode não significar necessariamente para melhor ou pior. Como tudo, sujeito à dicotomia argumentativa, à dialéctica, para uns caminharemos para o inferno, para outros para um purgatório.
Pessoalmente, apesar das guerras, das velhacarias do homem, tenho para mim que a humanidade, ainda que com avanços e recuos, caminha sempre para melhor. Há alturas que se dá um grande trambolhão, como a crise actual que estamos a viver. Estas paragens obrigatórias não são mais do que momentos que servem para auto-análise e para fazer reflectir (e inflectir) sobre uma direcção em que, alienadamente, caminhávamos e não estava a surtir os efeitos desejados. Felizmente que a sociedade, mesmo que pouco faça para isso, possui mecanismos anti-corpos que, evitando o colapso, obrigam a estas paragens económicas de inflexão.
Nós humanos, temos uma extraordinária capacidade de escolher o que é melhor. Naturalmente que as lutas políticas, económicas, sociais, religiosas, e outras, provocadas pelo dissenso, em busca de um mundo melhor, acabam por levar a um consenso, ainda que não seja unânime.
O que quero dizer, é que apesar da minha abertura mental a todas as convicções possíveis e imaginárias, quando vejo os exemplos que citei –naturalmente que há muitos mais- começo a pensar sobre o que quereremos realmente. De repente, vem à ideia aquele aforismo popular que se conta acerca de determinada estrela do nosso universo humano: “olha, ele tinha tanta, tanta, mulher bela, que acabou por se fartar delas e agora é “gay”!”.
Se calhar, é isto mesmo. A fartura é tanta, e a máquina do marketing, não dorme –precisa, continuamente de, através da ansiedade, gerar novas falsas necessidades- que acabamos por cair nas aberrações.
Claro que não quero cair em contradições, e novamente reitero que cada um come do que gosta. Com franqueza é o meu lema, desde que não me incomode, tanto se me faz que seja homossexual, seja bígamo, polígamo, ateu, agnóstico, ou politeísta. Mas isso não quer dizer que eu, no fundo, ainda que lute contra isso, não tenha os meus paradigmas e estereótipos sociais.
Tenho a certeza que a percorrer o tal caminho da busca de um mundo melhor, não é possível, a qualquer preço, valer tudo, matar, roubar, enganar. Não devemos esquecer que a ética e a forma comportamental como nos relacionamos com os outros é fundamental para uma sociedade futura mais justa e solidária.
Bom, mas, em resumo, cada um de nós, ainda que isoladamente, como átomos, fazemos o todo, é que deve escolher o que é melhor para si. Sem dúvida que é nesta extraordinária diversidade de oferta variada, de gostos, de critérios, que reside a qualidade, ainda que, no fundo, e paradoxalmente, não se saiba bem o que é afinal esta utópica “qualidade”.
Somos mesmo extraordinários, não somos?

UMA CONVERSA QUE NOS DEVERIA FAZER PENSAR




Comprei pêssegos no Cais Sodré... a um euro o quilo

Eu: Dê-me 1 quilo sff
Ela: Só um quilo? Não quer dois?
Eu: Não só quero um quilo
Ela: Então e um rapaz do seu tamanho só come 1 quilo? Então e a sua mulher não gosta de pêssegos?
Eu: Vivo sozinho, se levo 2 quilos estragam-se
Ela: E como é que um rapaz tão bonito vive sozinho?
Eu: Não me lembro muito bem porquê mas deve haver uma razão ... levo só um quilo
Ela: Você deve ser fresco... leve os dois quilos estão a acabar e faço-lhe o preço de um e meio.
Eu: “Tá” bem pronto... levo os dois quilos
Ela: Você até nem tem cara de mau rapaz ... elas hoje em dia também não são grande coisa... nem um prato sabem lavar
Eu: Não preciso que ninguém me lave os pratos tenho máquina
Ela: Case comigo
Eu: Hoje não me dava assim muito jeito... fica para outra altura... 1 euro e meio?
Ela: sim
Eu: Boa tarde... obrigado
Ela: Adeus... se o vejo a comprar pêssegos noutro sítio nem sabe o que lhe faço

Nota: No "Intermarché" nunca ninguém me pediu em casamento e nunca consegui regatear um preço

(ESTE INTERESSANTÍSSIMO TEXTO FOI ROUBADITO AO "ZÉ" -"NON_SIGILLUM", NO NETLOG)
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Sexta-feira, 10 de Julho de 2009

ESCREVER APENAS POR ESCREVER





Hoje, estou apreensivo, do jeito que ninguém atura. Talvez por isso não me apetece escrever sobre coisas sérias. Quero escrever, mas de qualquer coisa, de uma banalidade qualquer. Ando à procura, ainda nem sei sobre o que me vou debruçar.
Estou naqueles dias, em que, como cana no canavial, balanço entre o presente e o futuro. Apetece-me viajar mas tenho receio que o autocarro, pelo aspecto envelhecido, avarie pelo caminho. Parece-me uma velha “carripana”, talvez dos anos de 1970, daqueles que vemos nas fotografias de quem veio de Cuba, e nos mostra para nos fazer inveja.
Em cima do tejadilho, numa grade, que pode servir para prender os sonhos, está repleta de malas de cartão, a fazer lembrar a Linda de Suza…ou talvez o contemporâneo Tony Carreira.
Dentro da “caminheta”, repleta até ao tecto, gente como eu, de sapatos sem brilho, meios-gastos pela erosão do tempo, com uma fatiota domingueira já tão coçada quanto a camioneta que, apesar dos solavancos da vereda, provocando encontrões nos passageiros, teima em não avariar, como que a contrariar o meu presságio. Tive sorte, vou ensanduichado entre duas mulheres avantajadas. Numa travagem sem contar, por causa daquele rafeiro escarnecido, fiquei com a minha cara entalada entre os largos seios de protuberâncias, como “air-bags”, a amolecer a pancada sofrida pela pressão dos travões a chiar num “chinfrim” a ecoar pela montanha. Tive realmente sorte, neste pesadelo viário, em forma de aventura turística cubana, não viajava nenhum ambientalista, caso contrário, seria um grande “trinta-e-um”. É que a poucos metros do sopé do monte, por onde passamos, um casal de águias-reais, num daqueles entretenimentos que os humanos conhecem tão bem, foi interrompido e, em grito histérico de protesto, bateram asas ao vento e deram ao slide, perdendo-se no horizonte.
O condutor do autocarro, displicentemente, quase em provocação, de cigarro no canto da boca à Jean-Paul Belmondo, saracoteando pela vereda estreita da montanha, parece não se preocupar com as gentes “ensalsichadas” e muito menos com os apertos que sofro quando aqueles “buldozers” de mulheres me apertam contra o peito. Lá em baixo, deslizando os olhos pela escarpa que os milénios se encarregaram de esculpir, umas águas calmas, num mar azul, parecem convidar a saltar da enferrujada “trotineta”, mas as mulheres avantajadas, sem preocupações de linha corporal não me deixam. Transpiro por todos os poros. Dentro do veículo, que mais parece uma porcaria…de porcos, o suor mistura-se de hálitos campezinos e urbanos.
Lá no fundo, nas traseiras do carro, onde o tecto se curva, alguém ensaia uma canção popular com os beiços encostados numa harmónica. Uma mulher trinca-espinhas reclama pelos acordes, acordou o seu menino. Mas o flautista é teimoso, e de surdo faz-se burro, e continua a encher a camioneta de sons desconexos, parecidos com uma canção pimba. E assim chegamos à meia-praia. Paramos então no largo. É uma festa para a aldeia. Aproxima-se o “Zé-tolo”, com aquele ar desconjuntado, estende a mão a qualquer um, e no meio de um grunhido parece querer dizer: “ó… dótor…munheda…munheda…”
E eu, sem mais tema para escrever, vou ficar-me por aqui, antes que venha a noite…

UMA IMAGEM AO ACASO...





Uma imagem de um tempo presente, que o camartelo, a mando do homem, se encarregou de destruir a memória do passado. Provavelmente, daqui a cinquenta anos, os nossos netos, olhando estes prédios agora decrépitos, mas, nessa altura, refulgentes de tinta e verniz, dirão para os seus herdeiros: “olhem filhos, vejam aqui este milagre da multiplicação. Com apenas um “metro” de ilusão, depois da destruição, transformou-se uma linda avenida em quilómetros… cheia de carros. O “homo-politicus” é imparável, não acham?”…

OS OLHOS DA ESCURIDÃO




Ao meu lado, o homem vai conversando. Naquela rua comprida, um pouco sinuosa, a que chamam de “direita”, onde o sol faz um violento esforço para beijar o chão, ambos caminhamos em passo resoluto. Em simulação de abraço, por entre o seu braço, levo o meu braço. O homem é cego de ver. Mas só o saberá quem olhar os seus olhos desérticos de vida, vazios de luz, ou então pela bengala listada. Se atentar apenas na aparência de deslocação, pensa que esta pessoa é senhora dos seus cinco sentidos.
Percorremos cerca de 150 metros. De repente o homem pára estático e diz: “é aqui neste prédio!”. Fiquei boquiaberto. Interrogo, diga-me, senhor António, como é que sabe que é aqui? “Ai sei, sei, e até lhe digo mais: o outro edifício de que falávamos há pouco é ali à frente. Está a vê-lo?”.
Não sei se alguma vez, você, leitor, se sentiu idiota como eu me senti ali, ao lado deste invisual. E da minha boca sai uma pergunta parva em forma de interrogação: mas como é que o senhor sabe? Sem conseguir ver, como consegue reconhecer’ “Eu conheço a Baixa toda…pelos passos. Repare, nós estávamos na Praça 8 de Maio. Eu sei quantos passos são até aqui, para onde vínhamos. Assim como, sei quantos são até lá à ponta. Eu tenho o número de passos na cabeça de qualquer ponto que percorro no dia-a-dia”, diz-me o António.
Não há dúvida de que apanhei uma lição. Quando passamos por um qualquer invisual, porque estamos agarrados a pré-conceitos, nem imaginamos as capacidades que, por necessidade ou por compensação da natureza, estas pessoas desenvolveram. Mesmo no tacto, enquanto conversava com ele, acerca de um assunto, retira a carteira do interior do bolso, e do meio de vários papéis, diz-me “está aqui, veja!”.
Quando voltar a passar ao lado de um qualquer cego, vou olhá-lo de outro modo. Sei que ele não vê com olhos de quem não pode ver, mas “sente”…e, provavelmente, “pressente” tudo o que o rodeia.
A natureza, no dia-a-dia, dá-nos lições de vida…